segunda-feira, 26 de março de 2012

Das razões de viver de um Tumbeiro

        ( Ubirajara Anchieta)


Os arreios eram trono
no reinado dos seus domínios:
As lonjuras da campanha
e a copa azul do céu.
Um estradeiro gaúcho
na brasa do sol se aquece
à noite namora a lua
tem a alma nas estrelas 
nos pelegos, o  galpão.

Quando cansado de estrada
chegava em alguma estância.
Ao pedir abrigo a si
e invernada ao cavalo
as suficientes referências:
Sou de onde, meu nome é tal
Sou disposto e sou de bem
sou uma força braçal
Para lhe dar ajutório
sem ajuste de mensual.

Talvez por dentro trancado
algum desgosto trouxesse
que nem mesmo em oração
gostava de repartir.
Vivia na paz de si
com o sagrado direito
de não dividir os segredos
que a vida em lição lhe dera.

Esse, de dentro escondido
Poderia ser o remorso 
por ter sido responsável
pela subida de alma
que encontrou a passagem
no rombudo de uma bala
ou fina ponta de adaga
num desforço de valentes
em desavença de ramada,
em capão ou campo aberto.

Poderia ser de tranças,
cambicho daqueles grandes
que se apodera do ser,
retira as forças de dentro,
desfoca os olhos do mundo,
deixando só à chinoca
nossa vontade de ver.
E num repente, a maleva se vai...
deixando um rombo no peito
que apenas a estrada larga
e o céu num choro de estrelas
lhe poderiam curar.

Por esses tantos porquês
Relato e volto ao início
O Tumbeiro traz municio
Ao pago que se fez forte
Pois, se não aparenta norte
Se orienta pelo seu Eu
E se a cumieira é o céu
O horizonte é seu catre.
Porque ele traz no sangue
Remissivo gen campeador,
marca dos ancestrais,
os formadores deste pago?

Quem sabe o tumbeiro,
andando sem rumo certo,
encarnou a alma beduína
e vive a procurar poço
para saciar a sede
na miragem de um oásis
dum deserto que é só seu?

sexta-feira, 23 de março de 2012

HORIZONTE


Bira Anchieta


Horizonte...

 Audácia ...

Tamanho de cada homem...

O  horizonte, ao poente

do mundo culto e antigo,

 guardado por monstros,

  acabava em abismos.

 O sistema egogeocentrado

com  correias da inquisição

 amarrava  idéias.

Até que...

um ovo cozido!

 cortou   amarras,

derrotou  monstros,

 fez ponte nos abismos.

 

Varando medos,

impulsionados pelos ventos da ousadia,

barcos trouxeram,

gigantes e velozes centauros,

que conquistaram e destruíram

povos antigos e avançados,

- sem conta de marcas de luas -.

Ao sul... da linha do Equador,

 poucos anos depois

 da primeira gaivota anunciar:

  terra firme!

“descobriram”  outras terras.

Fizeram nova invasão!

 tal como lá,

conquistaram e destruíram.

 Proteína, iluminação, abrigo e dobrões,

era o gado que os soldados da fé

plantaram nas livres Vacarias

dos Pinhais e do Mar.

Serviu, culturas e comunidades

brilhantes e estruturadas,

que o bandeirante

 e a cobiça de Algarve e Castela,

aniquilaram.

 Semearam estâncias.

Marcos de posse e colonização.

Latitudes e longitudes

 delinearam os mapas.

Nasceram Pátrias.

Aconteceram guerras

 por brilhantes, metais e  limites.

Morreram milhões.

Tantos, quanto a satisfação

de quem fomentou discórdia,

para lucrar e ganhar poder.

A mutante geografia

sinaliza acomodação de fronteiras.

São desenhos quase permanentes,

e o horizonte...

 ficou mais largo e sem mistérios na Terra.

O homem, insatisfeito e inquiridor,

 manejando cavalos alados

conquistou as alturas.

Pisou na ternura da lua.

 Intrépido,

continua seu rumo

na direção do  infinito,

buscando horizontes

muito além das estrelas.